Desfibrilador / Cardioversor

 

O desfibrilador consiste em um equipamento cuja função é a de emitir uma descarga elétrica na parede torácica do paciente de forma a reverter um quadro de fibrilação auricular ou ventricular do mesmo. Esse ato leva o nome de reversão ou cardioversão.

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A história do desfibrilador:

Inicialmente a fibrilação ventricular foi analisada em 1850 por um fisiologista alemão chamado  Carl Ludwig.

Carl Ludwig
Carl Ludwig

Em 1874, Alfred Vulpian, um neurologista francês verificou que a causa da fibrilação ventricular são alterações anormais na contração miocárdica decorrente de impulsos elétricos propagados irregularmente.

Alfred Vulpian
Alfred Vulpian

Em torno dos anos 1900, Engenheiros Eletricistas da Universidade Johns Hopkins, em Maryland utilizavam choques elétricos em corrente alternada para sacrificar cães de rua, e efetuando vários experimentos verificaram que um segundo choque trazia a vida de volta ao cão.

Claude Beck, um cirurgião cardíaco americano começou um estudo com animais, efetuando choques elétricos com o peito aberto diretamente no coração. Em 1947, estava ocorrendo uma cirurgia cardíaca em um garoto de 14 anos de idade, quando o coração do mesmo parou. Claude Beck imediatamente buscou seu equipamento de laboratório, e utilizando duas colheres com cabo de madeira como pás, Beck aplicou o choque com corrente alternada em seu paciente, e o coração do garoto voltou a bater normalmente.

Claude Beck
Claude Beck
Claude Beck
Claude Beck
Desfibrilador de Beck
Desfibrilador de Beck

Em 1956, Paul Zoll, um cardiologista americano criou uma teoria para uma desfibrilação externa, sem a necessidade de abrir o peito do paciente e aplicar o choque diretamente no coração. Inicialmente Zoll disse que um choque elétrico acima de 750 volts diretamente no peito de uma pessoa são suficientes para desfibrilar o coração.

Paul Zoll
Paul Zoll
Paul Zoll
Paul Zoll

Com os estudos de Paul Zoll, foi possível a criação do DEA (Desfibrilador Externo Automático).

 

O Coração e o Desfibrilador:

O coração é um órgão que tem como função bombear o sangue através do corpo em um ritmo ordenado para que se tenha melhor fluidez no carregamento do oxigênio pelas veias e artérias. Porém alguns problemas podem ocorrer com o coração, e o mesmo pode não funcionar corretamente, batendo desordenadamente ou até mesmo “tremendo”. Esse problema chama-se fibrilação ventricular, o que pode causar uma interrupção na circulação sanguínea, acarretando uma falta de oxigenação no cérebro e pode ser fatal.

Com a necessidade de diminuir as mortes causadas pela fibrilação ventricular, foi criado o equipamento chamado desfibrilador que consiste em um aparelho que emite uma alta tensão na parede torácica do paciente através de pás, afim de que o coração volte a emitir os pulsos elétricos ordenadamente.

Para a aplicação do desfibrilador no paciente, deve-se utilizar um gel, o qual melhora o contato entre as pás do equipamento e a pele do paciente, evitando mau contato e consequentes queimaduras. As pás devem ser posicionadas com cuidado sobre o peito, pois há uma posição correta entre o Apex e o Sternum.

Após a aplicação da descarga, uma nova avaliação deve ser feita no paciente, verificando a correção da fibrilação, a consciência e o nível de saturação de oxigênio.

 

Tipos de Desfibrilador

Desfibrilador Externo Manual:

Desfibrilador
Desfibrilador

Consiste em um equipamento que possui duas pás (Apex e Sternum) conectadas por um cabo, e que pode ser encontrado em hospitais e unidades de tratamento intensivo e geralmente permanecem em um carrinho de emergência, juntamente com medicamentos e produtos para possíveis emergências.

Cardioversor:

Desfibrilador Manual Externo
Cardioversor

Os Cardioversores são equipamentos que levam a base de um Desfibrilador, porém possuem um importante recurso incorporado em seu projeto, aliado a uma tela que envia informações do ECG do paciente ao operador, podendo também ser impresso em papel. Eles possuem um circuito capaz de sincronizar com os batimentos cardíacos do paciente, detectando uma arritmia ou uma fibrilação atrial. Este equipamento envia o pulso elétrico no momento da sístole, quando os ventrículos se contraem, logo após a finalização da onda R.

Desfibrilador Interno:

Desfibrilador interno
Desfibrilador Implantável
CDI dentro do corpo humano
CDI dentro do corpo humano

Desfibrilador Interno (Cardio desfibrilador Implantável - CDI): Este equipamento deve ser prescrito por um cardiologista para pacientes de acordo com seu histórico clínico e é implantado juntamente com um marca-passo através de procedimento cirúrgico. Este equipamento funciona de forma automática, e quando percebe a fibrilação, age rapidamente aplicando um pulso elétrico para correção do batimento. Este aparelho tem um custo elevado, e tem um prazo de aproximadamente cinco anos.

Desfibrilador Externo Automático:

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DEA com Cabo e Pás.
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DEA e o Simulador de Paciente para Treinamentos.

Desfibrilador Externo Automático (DEA): Este equipamento vem sendo popularizado e exigido em alguns locais em que aja um tráfego intenso de pessoas, como aeroportos, supermercados, estádios, shoppings, entre outros. Consiste em um aparelho pequeno, portátil e possui pás descartáveis autoadesivas. Seu funcionamento se dá com baterias e pode ser operado por qualquer pessoa, porém recomenda-se um treinamento para o manuseio. O equipamento funciona praticamente sozinho, cabendo ao operador efetuar a RCP (massagem cardíaca) e uma possível ventilação (respiração boca-a-boca). O equipamento “conversa” com o operador indicando o que deve ser feito em cada passo, através de um alto-falante, emitindo uma voz como a de uma pessoa, facilitando muito o processo de ressuscitação. Ele analisa os batimentos do paciente e em caso de fibrilação, automaticamente envia um pulso elétrico para a correção do mesmo.

 

Como Funciona o Desfibrilador:

Para entender o funcionamento do desfibrilador, primeiramente é preciso entender como funciona o nosso coração.

O coração é um órgão de nosso corpo que trabalha como uma bomba sanguínea de quatro câmaras. As câmaras superiores são os Átrios (direito e esquerdo) e as inferiores são os ventríloquos (direito e esquerdo. O sangue é recebido pelo coração de várias partes do corpo pelos átrios, passando para os ventríloquos, sendo bombeado novamente para o corpo.

Átrios e Ventrículos
Átrios e Ventrículos

O batimento cardíaco é feito através da movimentação de íons nas membranas celulares do coração, e este fenômeno é muito parecido com o de uma faísca produzida por uma vela de um motor de um veículo. O pulso de estímulo chega ao coração primeiramente nos átrios, bombeando o sangue para os ventríloquos. Os átrios são eletricamente separados dos ventríloquos, e  são ligados apenas por um nodo AV, que tem a função de retardar o pulso elétrico, aguardando o sangue chegar na parte inferior para então bombear para o resto do corpo.

Caso esse processo funcionasse sempre corretamente, não haveria necessidade de um equipamento como o desfibrilador ser criado, porém existe um problema chamado Fibrilação, e ela pode ser tanto Atrial como Ventricular.

Nas duas situações as células de determinada parte do coração não irão obedecer corretamente ao pulsos elétricos, podendo bater de forma desordenada, ocorrendo ondas de contração podendo variar de 250 a 500 batimentos por segundo. Isso ocorre em um bombeamento de sangue não eficiente, podendo interromper a circulação, gerando a falta de oxigenação no cérebro, podendo ser fatal.

Nas imagens podemos verificar que com um exame de eletrocardiograma de uma pessoa sem problemas vasculares, o formato de onda ocorre ordenadamente. Já no eletrocardiograma de uma pessoa com problemas no coração, aparece uma forma de onde irregular.

ECG Normal
ECG Normal
ECG com Fibrilação
ECG com Fibrilação

É nesses casos que o desfibrilador entra em ação. Ele vem com o intuito de restabelecer o correto funcionamento dessas câmaras, e retornar à correta circulação sanguínea. Isso acontece devido ao fato de que o coração é movido por pulsos elétricos, e caso os mesmos não se comportem adequadamente, um meio externo pode ser acionado, sincronizando com o paciente e efetuando um pulso de alta tensão, reordenando os batimentos.

À primeira vista, este equipamento pode parecer simples, porém é um equipamento de alta complexidade, com muitas normas para ser construído e com uma rígida exigência de manutenções preventivas regulares, bem como suas calibrações para garantir o correto funcionamento e a correta potência de saída selecionada pelo operador do equipamento.

O Desfibrilador Externo Manual consiste em um equipamento que pode ser tanto analógico para os mais antigos quanto digital para os mais novos. Este equipamento possui uma fonte de alta tensão e uma placa de controle, que irá coletar as informações de seleção de energia programada pelo operador através de um teclado e informará estes dados para que se carregue eletricamente o capacitor para posterior descarga elétrica através das pás externas.

Este equipamento também possui pás internas, que são utilizadas diretamente na reanimação do coração em caso de transplantes, e servem para acionar o mesmo.

O Desfibrilador Interno (Cardio desfibrilador Implantável – CDI) é um equipamento que é implantado no paciente e é conectado diretamente ao coração. Consiste em um aparelho envolvido por titânio, e em seu interior possui um microchip, um eletrodo fabricado de metais nobres biocompatíveis (platina, prata ou irídio) e uma bateria de longa duração. Quando detecta um ritmo desordenado o equipamento entra em ação, enviando um pulso elétrico através dos eletrodos e corrige os batimentos automaticamente.

O DEA (Desfibrilador Externo Automático) é um equipamento microprocessado que faz a leitura do ECG do paciente, visando qual a parte da curva do batimento do coração deverá ser corrigida, sempre informando ao operador o que ele deve fazer através do alto-falante. Este aparelho é alimentado eletricamente com baterias, sendo portátil. Essas baterias alimentam uma fonte de alta tensão, e que enviam energia para um capacitor que armazena essa energia, aguardando um comando do microprocessador para ser disparada para as pás externas. A intensidade do pulso elétrico é influenciada por dois fatores, primeiro a carga do capacitor, segundo a resistência da pele (massa corporal). Alguns modelos ainda possuem um microfone, que grava todo o som externo do que está acontecendo no momento da emergência, podendo ser verificado posteriormente, juntamente com o diagnóstico de ECG do paciente e do pulso elétrico enviado.

Choque do Desfibrilador:

Nos desfibriladores mais antigos, o choque elétrico era enviado com uma onda trapezoidal truncada, porém este tipo de equipamento não está sendo produzido devido a pouca eficácia do seu choque. Os equipamentos mais atuais funcionam com as ondas senoidal amortecida e a bifásica. Veremos a seguir a diferença entre as curvas:

Senoidal Amortecida, Trapezoidal Truncada e Bifásica.
Senoidal Amortecida, Trapezoidal Truncada e Bifásica.

 

A onda bifásica é uma evolução da senoidal amortecida. Estudos indicam que pacientes que recebem a onda bifásica possuem uma melhor recuperação dos batimentos cardíacos. Este formato de onda ainda tem benefícios para o próprio equipamento, diminuindo o tamanho do mesmo, podendo conter baterias menores, e  ocorrendo menos manutenção.

Na imagem a seguir veremos um esquema elétrico básico para um desfibrilador de onda senoidal amortecida:

Circuito Básico de um Desfibrilador de Onda Senoidal.
Circuito Básico de um Desfibrilador de Onda Senoidal.

Tipos de Pás para Desfibriladores:

As pás dos desfibriladores variam de acordo com o paciente. Para adultos é recomendado que se utilize pás entre 8 e 13 cm, e para pacientes pediátricos entre 5 e 8 cm.

Existem pás permanentes, sendo confeccionadas de aço inox, e também existem pás descartáveis, feitas de um material auto-adesivo que já contém um gel que melhora o contato entre a pá e o paciente.

As pás internas são côncavas para melhor aderir ao coração, pois o choque é enviado diretamente ao órgão. Quando o equipamento detecta o uso de pás internas, limita sua energia de saída para 50J, pois uma energia muito alta aplicada diretamente no coração pode causar danos irreversíveis nos tecidos do mesmo.

Veremos nas imagens os tipos de pás para desfibriladores:

greated_pas-para-desfibrilacao
Pás Externas Permanentes.
Pás Externas em Uso.
Pás Externas Permanentes em Uso.
Pás Externas Descartáveis.
Pás Externas Descartáveis.
Pás Externas em Uso.
Pás Externas Descartáveis em Uso.
Pás Internas Côncavas.
Pás Internas Côncavas.

Dicas de Manutenção

Manutenção

Não Liga: Verifique a tomada, o cabo de força e os fusíveis do equipamento, verifique a chave liga/desliga. Verifique se há fusíveis na placa fonte, e se os mesmos não estão queimados. Verifique as tensões de entrada e de saída do transformador da placa fonte.

Não Carrega Energia: Verifique os botões de carga das pás e do equipamento. Verifique as condições do cabo das pás. Verifique a placa de controle. Verifique as condições do capacitor de armazenamento de carga.

Não Descarrega Energia: Verifique os botões de carga das pás e do equipamento. Verifique as condições do cabo das pás. Verifique a placa de controle. Verifique as condições do capacitor de armazenamento de carga.

Não Envia Energia Selecionada: Verifique as condições e o contato das pás. Verifique a energia de saída com um analisador apropriado. Solicite a calibração do equipamento com um laudo.

OBS.: Caso não tenha familiaridade com manutenção, procure uma assistência técnica autorizada para o seu equipamento. Como este é um equipamento de suporte à vida, ele não pode falhar. Por isso mantenha as manutenções preventivas em dia, bem como as calibrações com um certificado de calibração executado com um equipamento padrão rastreado à RBC (Rede Brasileira de Calibração) pelo menos uma vez por ano. Desta forma você irá garantir que o equipamento esteja em um perfeito funcionamento.

Fabiano R. Pereira

Técnico em Eletrônica Industrial a 8 anos, e estudante de Engenharia Eletrônica na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Desde a sua formação técnica atua como Técnico em Equipamentos e Instrumentos Médico-Hospitalares.

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